15/04/2005

POR QUE O GRAFITE TEM APELIDO DE GRAFITE?

Estou pasmado com a repercussão e o mal entendimento do post abaixo.

Hoje de manhã, aqui num hotel em Manaus, onde preparo um espetáculo para a próxima semana no Festival de Óperas, fui acordado as 6 da manhã (aqui estou uma hora antes de Brasília) para entrar ao vivo numa rádio de Buenos Aires.

Diante da enxurrade de comentários e e-mails volto ao assunto.

Existem pessoas que se dizem "decepcionadas" comigo. Leram um "racismo" nas minhas palavras. Olha, pessoal, eu não sou santo. Nem cardeal candidato a Papa. Mas desculpem, vocês me apedrejam usando como arma um ódio e preconceito enraizado contra os argentinos. É uma bandeira evidente do vosso próprio racismo às avessas.

Meu ponto é muito claro. A beleza do jogo de futebol é o teatro do gramado, 11 contra 11 e uma bola no meio. É uma guerra encenada, um momento dramático com tão bem narrou Nelson Rodrigues em suas crônicas, sem mortos e feridos no final dos 90 minutos. Quer dizer, às vezes a ignorância produz violência. Como agora, quando o calor de uma partida é transformado em ódio entre dois povos vizinhos pela mídia e pelos incautos. Alguns comentadores desse blog.


O racismo está enraizado em nossa cultura. Até mesmo no apelido do jogador negro que foi vítima do xingamento. Ou você acha que Grafite é um apelido carinhoso que ele ganhou na infância?

Pense nisso por alguns segundos.

Em momento algum me coloquei ao lado de agressores da raça negra. Somos o segundo país em população negra do mundo. Só atrás da Nigéria. Graças aos negros que para cá vieram contra a vontade deles, temos uma das culturas mais ricas desse planeta. Inclusive na beleza do nosso futebol.

O preconceito está dentro de nós todos. Vamos todos nos educar e aprender com esse episódio. Não devemos combater preconceito com outro preconceito. Para os que me interpretaram com ansiedade e cegueira, esse é o meu recado no post abaixo.

Escrito por Marcelo Tas às 08h14

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14/04/2005

RACISMO OU TEMPESTADE EM COPO D`AGUA?

Desculpe Grafite, mas essa barulheira toda, passou do bom senso.

Dentro do campo, os jogadores de futebol se xingam, se beliscam, se cospem... Futebol é o teatro de uma guerra. Só que ninguém morre no final. É um jogo, literalmente.

Sou totalmente contra a violência no futebol. Já me posicionei várias vezes a respeito. Mas transformar uma briga dentro de campo num impasse internacional, acusar o argentino de racismo como se o cara fosse um Hitler, pra mim passou do ponto. E deturpou uma legítima posição que poderia ter sido elegante e didática. Do Brasil dizer um basta à chacota dos argentinos que nos chamam de "macaquitos".

Isso não é verdade para a maioria dos argentinos. Que amam e tem admiração pelo Brasil e pelos brasileiros. Tirando aqueles animais de sempre, que existem em todas as sociedades.

Escrito por Marcelo Tas às 11h52

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13/04/2005

O LEÃO DO IMPOSTO DE RENDA TA DE BOBEIRA?

Meninada

Abril é mês de declarar imposto de renda. Recebo e-mail com a denúncia abaixo. Como toda informação da internet, tem que ser checada. Mas não deixa de ser uma idéia criativa.

Alguém sabe dizer se é possível fazer declaração de imposto de renda fantasma, em nome dos outros?

Será que os nerds do leão não pensaram nisso?

..::..
Só mesmo no Brasil,acontecem estas coisas !

Para
Jorge Antonio Deher Rachid
Secretário da Receita Federal
Ministério da Fazenda
70048-900 Brasília DF
C.C. (lista anexa abaixo)

Rio de Janeiro, 07 de março de 2005.

Prezado Senhor,

Com sua cumplicidade, temos hoje, no Brasil, um dos mais poderosos
instrumentos de fraude impune! Talvez, uma das mais perfeitas técnicas
de causar muito mal a pessoas, e isso no mais total anonimato, como na mais total impunidade!

Vejamos, o que é sabido de todos: como causar danos - quem sabe
irreparáveis - à vida fiscal de pess oas, e, através disso, à vida social/pessoal destas pessoas. Os passos são listados a seguir, de maneira sistemática, para facilitar a compreensão de todos:

1.. Determine seu desafeto (pessoa a prejudicar). Eu não por favor
2.. Obtenha seu CPF (cheques recebidos, documentos em geral, pesquisa simples na Internet, ...)
3.. Carregue e instale o programa IRPF2005 - Declaração do Imposto de Renda de Pessoa Física 2005 - do site da Receita Federal em www.receita.fazenda.gov.br. Isso pode ser feito em qualquer Cyber Café, por R$ 5,00 a hora!
4.. Usando esse programa - que não faz NENHUMA verificação de autenticidade - faça uma declaração falsa de Imposto de Renda, usando o CPF obtido. Nesse site da Receita Federal, é possível consultar a situação do CPF, e assim recuperar o nome correto. Invente qualquer ender eço: esse ano é ainda mais fácil.
5.. Para ter a maior probabilidade de complicar - para sempre! - a vida de seu desafeto, envie essa declaração pela Internet, anônima e impunemente, já nos primeiros dias para a receita. Assim, você impede que uma nova declaração seja feita após!
6.. Enviar uma declaração falsa, anônima, e impune, requer alguns poucos segundos: assim, pode-se fazer isso com várias, muitas pessoas. O roteiro acima pode ser feito de qualquer lugar anônimo, na mais total impunidade. E provoca danos fortes, quem sabe irreparáveis, à vítima.
Será que nenhum alto funcionário dessa bagunça chamada Administração Pública do Brasil pensou nisso? Quanta pobreza reina nesse mundo...
Esperando que as próximas vítimas sejam os responsáveis, Everardo de Almeida Maciel, e Jorge Antonio Deher Rachid, e todos os demais da lista que já deveriam ter feito alguma coisa, solicito que esse alerta seja publicado de modo a informar a sociedade brasileira do des caso dos poderes públicos quanto a tudo, em especial quanto à vulnerabilidade e à privacidade da vida fiscal do cidadão.
Obrigado,
Armando Leal
----------------------
Com Cópia enviada às seguintes potenciais vítimas ilustrativas, cujo CPF está disponível numa simples busca na Internet

698.397.277-53 - Secretário ANTHONY WILLIAM MATHEUS DE OLIVEIRA

000.755.905-49 - Senador ANTONIO CARLOS PEIXOTO DE MAGALHAES

120.055.093-53 - Ministro CIRO FERREIRA GOMES

133.267.246-91 - Ministro DILMA VANA ROUSSEFF

018.711.614-87 - Ex-Secretário EVERARDO DE ALMEIDA MACIEL

062.446.028-20 - Ex-Presidente FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

549.149 .068-72 - Governador GERALDO JOSE RODRIGUES ALCKMIN FILHO

223.762.830-00 - Governador GERMANO ANTONIO RIGOTTO

000.309.618-15 - Ministro GILBERTO PASSOS GIL MOREIRA

003.789.256-87 - Embaixador ITAMAR AUGUSTO CAUTIERO FRANCO

347.586.406-10 - Presidente da Petrobras JOSE EDUARDO DE BARROS DUTRA

935.659.688-34 - Prefeito JOSE SERRA

070.680.938-68 - Presidente LUIZ INACIO LULA DA SILVA

023.504.757-00 - Ex-Presidente da Eletrobras LUIZ PINGUELLI ROSA

699.158.908-00 - Ex-Prefeita MARTA TEREZA SUPLICY

147.576.050-72 - Presidente da RBS NELSON PACHECO SIROTSKY

027.934.827-49 - Diretor da Rede Globo ROBERTO IRINEU MARINHO

012.091.598-72 - Ministro ROBERTO RODRIGUES

003.212.908-44 - Presidente do Estadão RUY MESQUITA

023.511.558-40 - Ex-Assessor WALDOMIRO DINIZ DA SILVA

046.996.965-20 - Banqueiro ANGELO CALMON DE SA

008.377.188-30 - Presidente do Banco do Brasil CASSIO CASSEB LIMA

Atenciosamente,

Cláudio Andrade Rêgo
Perito Judicial em Informática
Enviar a um amigo

Escrito por Marcelo Tas às 23h12

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11/04/2005

O CINEMA AINDA RESPIRA



Se você anda cansado desse papo de papa, televisão, big brother, lula e superavit fiscal... e já estava desanimado com a morte do cinema depois que viu o último filme do Bruno Barreto... mergulhe na primeira sala de cinema onde estiver passando A Casa das Adagas Voadoras, House of the Flying Daggers.

Enquanto os teóricos ficam falando no fim do cinema, no domínio das nossas mentes pelas imagens... vai lá um chinês e mata a cobra e mostra o pau. Tudo ao mesmo tempo. É uma hora e meia de puro deleite. Uma história simples e complexa ao mesmo tempo, como sempre foram as boas histórias desde os gregos.

De você sair do cinema aliviado e perturbado ao mesmo tempo.

Não tenho mais palavras. Vá lá.

PS: se você tiver a manha, e quiser realmente ser abençoado, vá até a Vila Prudente, e assista as adagas voando na maior tela de SP: a sala 10 do Central Plaza.

Escrito por Marcelo Tas às 10h33

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07/04/2005

FIM DE JOGO



Não, meus amigos e amigas do blog. Não é a saída da Gaviões da Fiel do Pacaembú, depois da histórica vitória por 5 x 1 sobre o Cianorte, ontem à noite em São Paulo. Trata-se de uma imagem da agência Reuters feita também ontem à noite na Praça São Pedro. É o lixo deixado pelos religiosos enfileirados para se despedir do papa. Hoje, a mídia já reconhece que a situação é "caótica" em Roma. Parece castigo de Deus. "Caótico" foi a palavra usada para fazer um trocadilho bobinho com "católico", pelo arcebispo metido a engraçadinho D. Eusébio Scheid, disparando uma crítica injusta e fora de hora ao nosso presidente Lula.

Aliás, o presidente está de parabéns pela comitiva que o acompanha ao Vaticano. Leva um líder religioso árabe, um judeu, um pastor evangélico, uma mãe de santo... Uma mostra do nosso sincretismo e tolerância. Parabéns, Lula (só não precisava levar o Zé Sarney, atual senador pelo Amapá, o único não eleito pelo povo dos ex-presidentes da comitiva).

Infelizmente, a mesma tolerância e elegância não rolou aqui nos comentários do blog. Eu não fico muito chateado não. Melhor pauladas do que hipocrisia.

Agradeço a todos que participaram intensamente do debate sobre a farra da mídia, do exagero com a "comoção mundial" e a falta de sensibilidade de alguns dos cardeias brasileiros no funeral do papa. Mas esse assunto, assim como o Big Brother Brasil 5, já se esgotou. Apesar da mídia brasileira, muito jeca, continuar danto primeiras páginas diárias, horas de telejornal para mostrar uma fila de turistas. Muito menos sincera do que a do Airton Senna. Enquanto a guerra civil continua comendo solta no país. Para fechar o debate, publico um dos muitos e-mails que recebi, com a respectiva resposta, para vossos comentários finais.



O Alberto Cavalieri Machado, autor do mensagem, vejo no endereço eletrônico dele, trabalha no governo do Estado do Rio de Janeiro. Mesmo discordando de mim, teve elegância e postura de debate livre e criativo que sempre norteou esse humilde blog. Agradecendo a ele, agradeço a todos vocês.

Sinceramente, rezo por mais inspiração e sabedoria à Igreja católica. Fica aqui a minha prece em honra à alma de Karol Wojtyla. Que ele descanse em paz.

Agora, voltemos ao trabalho, que a Copa é só em 2006.

..::..

Caro Tas,

De fato é lamentável que haja quem pense que um Papa só será ouvido se tiver um forte apoio da mídia . A mensagem que um Papa transmite transcende a mera propaganda pois diz respeito geralmente a temas fundamentais da vida humana. Por outro lado temos que reconhecer que os meios de comunicação no século XXI são meios poderosos para a difusão de mensagens mesmo as mais transcedentais e não devem ser desprezados pela Igreja. Finalmente devo dizer que não acho que "camisinha" deva necessariamente andar de mãos dadas com a evolução da mídia. A Igreja não é retrógrada mas sim o mundo atual ( será a maioria ou uma minoria com forte apoio da mídia ? ) que quer desfazer-se de valores éticos e morais conquistados ao longo de quase 2000 anos de cristianismo. Informe-se mais.
Um abraço,
Alberto.
..::..
prezado alberto

obrigado pelo mail

nao sou "contra" a midia. seria ser como ser contra o liquidificador ou a lei da gravidade. a forca da midia e' um dado real da nossa era

o que sugeri no meu comentário foi justamente mais discernimento no uso da midia e mais cuidado no uso das palavras, o que nao ocorre com alguns arcebispos brasileiros, como o deslumbrado eusebio scheid


usar a midia de uma forma etica e' a melhor forma de expressar valores "morais", o que infelizmente nao vejo na igreja atual.

agora, me desculpe: ser contra a camisinha na era da aids, nao e' apenas ser retrogado, mas e' no minimo cometer um crime contra milhoes de almas desamparadas e mal informadas quanto ao perigo desse virus ainda desconhecido

mesmo assim, vou procurar me informar mais sobre a igreja, como vc sugere

atenciosamente

tas

Escrito por Marcelo Tas às 09h51

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06/04/2005

A FARRA DA MÍDIA


Em Roma, a farra da... quero dizer... a cobertura da mídia continua forte. Repórteres entrevistam repórteres, mostram a fila que está com tantas horas de espera, vemos os auxiliares da prefeitura distribuindo água... Ou seja, não há assunto algum.


Um certo clima de festa, parecido com Copa do Mundo, só que sem nenhum jogo para ser reportado.


Tenho respeito por todas religiões, mas não tiro uma vírgula do post abaixo apesar dos protestos de alguns católicos que se sentiram ofendidos. Não foi minha intenção ofendê-los. Apenas externar meu ponto de vista. Há, no entanto, uma correção: não foi D. Cláudio Hummes, mas sim D. Geraldo Magela, o autor da piadinha "meu voto é secreto". A D. Cláudio, peço perdão pelo equívoco e desejo boa viagem e boa sorte no conclave. Ele, aliás, tem uma clara visão do atraso da igreja atual, como demonstrou em recentes entrevistas. 


Já seu colega D. Eusébio Scheid, continua dando show de baixaria para as câmeras. Ontem, na chegada à Itália chamou o presidente Lula de "boboca", disse que o presidente não é "católico", é "caótico". Posso até concordar, mas isso não é assunto para um funeral de papa.


Sinceramente, vou rezar para que os cardeais votem com sabedoria no sucessor de JP II. E que, como eu, a igreja aprenda a reconhecer e reparar os seus erros.

Escrito por Marcelo Tas às 07h11

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05/04/2005

A IGREJA NA CONTRA-MÃO DA HISTÓRIA

O papa morreu, mas talvez eu é que esteja velho demais. Me choca profundamente essa excitação a olhos vistos de bispos e cardeais frente às câmeras de TV. Os apresentadores de telejornal, estes sim constritos e tristes até demais, falam de uma "comoção mundial" com a morte do papa. Sinto muito, não vejo nada disso. Pelo menos aqui no Brasil, ao meu redor. A notícia da morte dele não mexeu nem com a minha tia carola lá de Ituverava.

O corpo do papa nem esfriou e já vejo, isto sim, um show de piadinhas. Ontem, D. Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, um dos cotados para o cargo (até pela mídia italiana) com direito a voto no conclave, apareceu sorrindo para as câmeras dizendo que o voto dele é "secreto".

Será que eu é que fiquei careta e os padres soltinhos demais?

Ainda, ontem no Jornal Nacional, D. Eusébio Sheid, arcebispo do Rio, disse com todas as letras no ramalhete de microfones à sua frente: "O papa que entrar tem que ser um homem da mídia. Nada vai hoje sem mídia."

Desculpem os pragmáticos que devem estar rindo dessa minha sensibilidade, mas não imagino na sucessão do Dalai Lama, este tipo de colocação. Esse tipo de baixaria. Para mim, um líder espiritual deve ser antes de tudo, um ser iluminado. Como João Paulo II era no início do seu papado. Depois, degringolou em política, show de mídia e conservadorismo retrógado. A igreja católica está na contra-mão da história. É a favor da mídia, mas contra a camisinha (!?). Por isso perde terreno a cada ano para outros tipos de religião. Palavra que significa religação, conexão com o indizível, o infinito... E não um show de mídia como o que estamos assistindo.

Escrito por Marcelo Tas às 07h38

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04/04/2005

ABRIL: AGITADO DE NOVIDADES

Meninada,

Andei sumido, eu sei. Mas tenho razões de sobra, os que puderem, me desculpem. O mês de Abril literalmente me abriu novíssimas visões de mundo, de vida e de trabalho. Abaixo, vai uma cópia de matéria publicada hoje na Folha de S. Paulo, sobre ZAP 2, O Resumo da Ópera, que estréia dia 23 em Manaus.

Também esta semana, inicio os trabalhos para o meu novo projeto na TV. Como alguns de vocês já viram por aí nos jornais, é um talkshow diário no Canal 21. Vai entrar junto com a nova grade do canal, prevista para o dia 25 deste mês. O projeto tem tudo a ver com essa exeperiência aqui do blog: opinião, humor, indignação... e especialmente com a forma livre, direta e interativa que conversamos aqui. Portanto, vocês- obviamente, os que quiserem- estão convidados a fazer parte do (talk) show.

O nome da empreitada é sugestivo: Saca-Rolha, com o hiper-ativo-criativo Lobão, a adorável-linda-direta Mariana Weickert e este pobre diabo que vos tecla. Eu volto pra contar mais. Enquanto isso, fiquem aqui com informações do Zap 2.

..::..

Versão expandida de espetáculo de Marcelo Tas e Bráulio Mantovani usará animação e telões para 20 mil pessoas

Festival no Amazonas abre com ópera "high-tech"

DIEGO ASSIS
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem disse que ópera é uma coisa chata? Muita gente...
Pois foi por esse motivo que, em 1999, o Sesc Ipiranga convidou Marcelo Tas, que de ópera não entendia bulhufas, para criar o espetáculo "Zap", uma aventura didática e nada despretensiosa que tem como objetivo passar a limpo os 400 anos de história do gênero.
Com sessões esgotadas em São Paulo e uma passagem pelo Festival Amazonas de Ópera, em 2002, a montagem volta a Manaus, expandida, nos dias 23 e 24 deste mês, como atração de abertura da nona edição do evento.
No lugar da "pocket-ópera" criada em 1999 para um piano, um espaço e um elenco muito menores, "Zap 2" ganhou ares de épico. Será encenada para 20 mil pessoas, do lado de fora do teatro Amazonas, de dentro de um "televisor" de 10 m x 14 m, e transmitida simultaneamente para sete telões espalhados pelo espaço.
Uma orquestra de 40 músicos e um coral de 65 serão os responsáveis pela trilha do espetáculo. Entre os cantores propriamente ditos, que vão estufar os pulmões em mais de 40 trechos de óperas diferentes, estarão as divas brasileiras Céline Imbert, Rosana Lamosa e Marta Herr, além da norte-americana Maria Russo.
Mais que a projeção, que usará por vezes o exterior do teatro como cenário, uma parafernália "high-tech" permitirá que os cantores interajam com animações comandadas por um VJ.
"A tecnologia sempre esteve presente na ópera. Wagner era um louco por tecnologia. O teatro que ele construiu na Alemanha, em Bayreuth, é 5.1. É "home theater". Wagner é o inventor do surround, foi o primeiro a colocar a orquestra no fosso e estudou acústica para desenhar cada peça daquele teatro", afirma Tas, 45.
O compositor de "Cavalgada das Valquírias", não por acaso, é um dos destaques da nova peça. De carona na montagem integral de "O Anel dos Nibelungos", que será exibida pela primeira vez no Brasil no festival, Tas e Bráulio Mantovani, co-autor do roteiro de "Zap 2", resolveram criar a sua versão, resumida, para a ópera.
Das 16 horas do original, "O Anelzinho" conta "tudo" em 15 minutos. "Com todo o respeito, a gente está retalhando Wagner. E ele não gosta muito", brinca Tas, fazendo referência a uma cena da montagem em que uma animação mostra o compositor alemão fazendo caras e bocas.
E o nariz dos puristas como fica? "No começo teve aquele estranhamento [por parte dos cantores], mas, no terceiro ensaio, eles começaram a entender e acharam divertido", conta o maestro Marcelo de Jesus, 33, diretor musical de "Zap 2" e regente da Orquestra de Câmara do Amazonas.
"Por incrível que pareça [dirigir] o "Zap 2" é mais difícil do que uma ópera tradicional. Tem que ser fiel a cada historinha e conscientizar o cantor de que ele vai ser aquele personagem por 20 segundos ou um minuto. Isso tira o lado de diva deles, de ser essa coisa inacessível", completa Caetano Vilela, 37, co-diretor cênico do espetáculo e cujo currículo operístico traz "O Elixir do Amor", com Yacov Hillel, e "O Barbeiro de Sevilha" -que, no "Zap 2", inclui um guardador de carros que leva 15 minutos só para explicar o endereço da famosa barbearia.

Televisão
"Não é um espetáculo erudito, é um espetáculo pop", avisa Mantovani, 41, roteirista de "Cidade de Deus", indicado para o Oscar e outro que, como Tas, também não entendia muito de ópera antes de embarcar na experiência. "O roteiro tem mais a ver com os mecanismos do que com as histórias das óperas. Explicamos os tipos de vozes, os tipos de histórias, tem até um momento em que mostramos como funciona o diafragma dos cantores."
Com transmissão ao vivo pela TV Cultura local e uma possível série de TV a caminho, esta pela TV Cultura de São Paulo, o grande televisor que serve de cenário para "Zap 2" é mais que um simples detalhe. Com isso, os criadores querem provar que a ópera, com seus enredos dramáticos e cenas de amor e morte, é a televisão do passado. "A gente brinca com as manchetes dos jornais sensacionalistas. Se fossem noticiar "Carmen", de Bizet, por exemplo, seria algo assim: "Soldado corno mata amante em tourada". A tese do espetáculo é que a ópera é um espetáculo popular."
Tas completa: "A gente ouve ópera todos os dias. E isso não é uma frase de efeito. Você liga a TV, e os comerciais mostram um trecho de ópera. Todo dia, no rádio, a "Hora do Brasil" abre com o "Guarany". "Tom e Jerry" e os desenhos de Disney estão cheios de ópera. Há óperas que até os motoristas de táxi assobiam".

Zap 2, o Resumo da Ópera
Onde:
teatro Amazonas - largo de São Sebastião (r. Tapajós, s/nº, região central, Manaus, AM, tel. 0/xx/92/233-1768)
Quando: nos dias 23 e 24, às 20h
Quanto: entrada franca.
Patrocinadores: Secretaria da Cultura do Estado do Amazonas, Bradesco e Coca-Cola

Escrito por Marcelo Tas às 00h31

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