



Ao final dessa semana de entrevistas com os principais candidatos a presidente, ao vivo, no Jornal Nacional- acabo de revisar todas na internet- tenho a impressão de que NÃO vi as mesmas entrevistas que meus ilustres colegas comentaristas de jornal e internet.
NÃO vi massacre algum. NÃO vi ninguém sendo surrado. NÃO vi nenhum candidato com performance pífia.
Com frequência, tem gente escrevendo sobre TV sem nunca ter estado lá dentro. Nem mesmo alguns minutos como entrevistador ou participante de uma mera mesa redonda. Justamente são esses "especialistas" que amam certos detalhes que na mairia das vezes são imperceptíveis, quando não desimportantes, para a maioria do público. Uma entrevista de TV ao vivo traz deslizes incontroláveis. Certa vez, ouvi de um respeitável jornalista depois de o entrevistar na TV Cultura: "desculpe, na TV sou sempre 30% mais burro". A brincadeira esconde uma revelação. Na maioria dos casos, os jornalistas se acham, por baixo, 30% mais inteligentes do que são de fato. Não estou malhando a categoria. Estou nela.
Mas voltemos ao JN. De uma forma particular, alguns candidatos se destacaram em relação aos outros por conseguir dar a volta por cima no nervosismo que é estar diante do gigantesco canhão de audiência do JN. De forma geral, TODOS os candidatos se saíram bem diante das perguntas, muitas vezes duras, levantadas por Fátima e Bonner. Aliás, a dupla, esta sim, esteve impecável. E como poucas vezes no telejornalismo, souberam dosar o tempo, a agressividade, o equilíbrio editorial e o respeito com os entrevistados. Na minha visão, eles, William e Fátima, foram as surpresas. Os vencedores desse primeiro round de entrevistas que continua com o debate na BAND, segunda-feira.
Abaixo, o meu ranking e comentários específicos sobre a performance dos 3 prinpipais candidatos:
3º LUGAR: LULA
Pros: Foi sincero. Pressionado, finalmente, assumiu que afastou os "cumpanheiros" que cometeram os pecadilhos do mensalão. Conseguiu em parte continuar descolado da sujeira.
Contras: Desacostumado a dar entrevistas ao vivo, Lula titubeou algumas vezes. Parecia surpreso de não receber dos apresentadores do JN o mesmo tratamento do jornalista contratado pela Radiobrás no programa de rádio "Café com o Presidente", onde ele sola à vontade toda semana. Cometeu dois atos falhos dignos de um bom psiquiatra: disse que a única coisa que não subiu no governo dele foram "os salários". Depois disse que no governo dele combateu sem tréguas "a ética" (e não a corrupção). Parece uma punição de papai do céu. O governo dele já ficou marcado por ser aquele que concedeu UMA única entrevista coletiva durante todo o mandato, mesmo assim sem direito a réplica.
2º LUGAR: ALKMIN
Pros: Tem sempre na ponta da língua dados concretos de projetos ou realizações no Governo de SP. Ao contrário do que saiu predominantemente na mídia, o candidato dizer que desconhece determinada pesquisa, como ele fez, não foi nada extraordinário ou assustador. Duvido que alguém do público tenha percebido esse detalhe, ultra valorizado pela mídia.
Contras: Atacado, gastou muito tempo na defensiva. Não soube ser o senhor do tempo, ao contrário de Heloísa Helena, minha candidata vencedora.
1º LUGAR: HELOISA HELENA
Pros: Como os grandes atores, teve a habilidade de dominar o tempo dramático da cena. E fez isso com humor e ironia, ao contrário do que alguns dos meus ilustres colegas comentaristas disseram, esses são os dois ingredientes raros e abençoados do ser humano. Soube rir até de si mesma.
Contras: Provocada, baixa nela o Enéas. Só que, para vantagem dela, as palavras mais bem apontadas, apesar de as vezes apimentadas e indigestas.
PS: atendendo a pedidos, acrescento aqui minha observação da performance do candidato Cristóvão Buarque. Não se contrói uma candidatura só com boas intenções. Pressionado, o candidato expôs na TV aquilo que acontece de fato nos bastidores da campanha dele. Como não tem espessura ou estofo partidário para sustentar uma candidatura a presidente, Buarque parece obrigado a posar de bebê chorão pedindo colo. Não deve conseguir ir muito longe com essa prática.