15/07/2007

Mudei de idéia: viva o Pan!





Desculpe seo Niemeyer, mas "este país" seria bem diferente se os governantes fossem periodicamente submetidos a uma vaia popular, coisa impossível naquele cerrado com ar-condicionado que é Brasília.

Charge: Enviado pelo Zérramos.

Escrito por Marcelo Tas às 22h57

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13/07/2007

Overdose- mal começou...

... e eu já não posso + ouvir falar em Pan.

Escrito por Marcelo Tas às 12h58

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12/07/2007

Aterrissagem em Londres



Ninguém fala deles. Mas os dias atuais andam difíceis mesmo é para os pilotos de avião.

Vivemos a confluência da explosão do transporte aéreo de massa com a superlotação das aerovias, além dos sobrecarregados e estressados controladores de vôo. Isso sem falar do dia em que o mau tempo cobre a visão justamente na hora de uma aterrizagem em um aeroporto totalmente lotado como o de Heathrow, em Londres.

Você teria a manha de pousar esse bicho nessas condições?

Escrito por Marcelo Tas às 13h23

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Borba Gato, o Cristo paulista



Aguentei firme a pressão de gente que pedia para eu comentar essa bobagem do Cristo Redentor carioca se tornar uma das "sete maravilhas do mundo". Jesus Christ, como se gastou papel e tinta com assunto tão desimportante!

Me interessa mais essa maravilha de video acima, uma ode à estátatua do bandeirante Borba Gato, produzida pela parceria de Calia Comunicações, Galeria Filmes, Edge3D, MCR e Rádio Facu; e a voz imortal e sempre ereta de Paulo Cezar Pereio.

Viva o Borba!

Escrito por Marcelo Tas às 09h18

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11/07/2007

Os ruídos da comunicação com os "Lemos"




Ainda a Flip. Os dias intensos em Paraty teimam em não sair da minha pele.

Agradeço imensamente os comentários e mensagens. Teve gente, como o Rogério Lemos, de Paraty, que levou a sério demais o fato de eu denominar a multidão louca por livros, os nerds das letras, de multidão de "Lemos", personagem presente nas crônicas de Nelson Rodrigues para designar aquele vizinho desconhecido da rua meio esquisitão.

Prezado Rogério, apesar do Lemos do seu nome, obviamente que nem eu, nem Nelson Rodrigues, estávamos nos referindo especificamente a você, sua família ou nem mesmo qualquer outro Lemos do Brasil e do mundo.

É tudo coisa do mundo da ficção, este lugar fascinante onde ficamos mergulhados durante uma semana. Ainda não consegui voltar. Vou continuar tentando.

Viva todos os Lemos do mundo!

(Acima, movimento na Tenda dos Autores, as 9h30 da manhã!, segundo a organização, nos cinco dias de Flip, foram vendidos 30 mil ingressos para as mesas)

(Abaixo, o e-mail do Rogério)

..::..

Prezado...

Nunca li seu blog ou suas notícias. A única coisa que me chamou a atenção foi por eu morar em Paraty há 3 meses, e estar empolgado com a Flip, já que eu trabalho no provedor de Internet oficial da Flip.

Em suma, sendo curto e grosso, não gostei da referência de "Lemos" como "aquele vizinho anônimo e esquisitão que todos temos no prédio". Pra mim, foi de extremo mau-gosto sua referência. Um sujeito que põe um blog de "Marcelo TAS" não pode criticar quem tem "Lemos" no nome.

Isso foi de um preconceito extremo!!!!! Tenho muitos vizinhos ao meu redor, muitos deles igualmente "esquisitões", e mesmo assim nucan os esteriotipei de "Marcelo Tas" da vida.

Não costumo mandar e-mails sobre o assunto, mas o mau-gosto de sua parte me obrigou a isso.

--
__________________________
Rogério Lemos
Paraty/RJ

Escrito por Marcelo Tas às 07h39

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09/07/2007

Blog em recesso parlamentar




Voltaremos às atividades depois de merecido descanso de pelo menos 48 horas. Obrigado pela companhia de todos nesta cobertura.

Longa vida a Nelson Rodrigues. Longa vida à Flip!

Escrito por Marcelo Tas às 07h29

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08/07/2007

Qual o futuro da Flip?






Como será o desdobramento do evento literário mais consistente e charmoso do Brasil? Uma questão delicada para os organizadores da Flip é como administrar o próprio sucesso. A cada edição tem mais gente em Paraty para ver a festa ao vivo. E, com certeza, mais gente ao redor do país se pergunta por que não pode ter acesso aos debates na íntegra pela TV ou internet.

No sábado, como se num sonho que pode virar pesadelo, a cidade ficou totalmente às escuras (foto acima) devido à demanda extra de energia com direito a explosão no transformador no poste da Praça da Matriz. A programação da Flip seguiu sem alterações, as tendas e palestras iluminadas com geradores próprios. Interessante notar a reação dos habitantes e turista: tranquilidade e até mesmo um certo prazer em saborear o breu com luz de velas ou com a luz azulada dos celulares iluminando o desafiador calçamento de pedra das ruas.

Enquanto outras demandas do futuro não chegam, um portal local da cidade, o Paraty.com, além de transmitir algumas das palestras, conseguiu a façanha de transformar a laje de um casarão da Praça da Matriz no estúdio de TV mais charmoso e ventilado Flip 2007.

Foto: este blogueiro com integrantes da equipe da Paraty.com, Thais Taverna, Fernando Rozo e Lia Capovilla.

Escrito por Marcelo Tas às 20h04

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TV Cultura e o óbvio ululante




Acima o final da desmotagem do estúdio móvel onde a TV Cultura gravou cinco especiais do programa Roda Viva, além de especiais dos programas Entrelinhas e Vitrine.

Segundo Paulo Markun, novo presidente da Fundação Padre Anchieta, graças aos apoios dos patrocinadores, o esforço não tocou em um centavo do orçamento da emissora.

Depois de tantos anos de crise e choradeira, é um alento ver a emissora pública paulista redescobrir o óbvio ululante: produzir programação com qualidade e eficiência.

Escrito por Marcelo Tas às 19h57

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Cidade de Deus encontra Serra Leoa e o teatro




O encontro do jovem autor Ishmael Beah, 26 anos, de Serra Leoa com Paulo Lins (Cidade de Deus) ajudou os brasileiros presentes na Flip a enxergar nosso isolamento do mundo e cotidiano violento em perspectiva.

Beah desconcertou a platéia com a doçura e clareza com que narra o cotidiano trágico de sua terra natal. Se disse feliz que depois de 8 anos de guerra civil em Serra Leoa, o mundo começa agora a receber a notícia com a ajuda do seu livro "Muito Longe de Casa".

Para exemplificar como seu país é ignorado pelo resto do mundo contou sua história pessoal a caminho da Flip. Tanto no vôo de conexão em Londres, quanto na chegada ao Rio de Janeiro, os oficiais da alfândega não conseguiram encontrar o nome do país no sistema de ambos aeroportos.



Na última mesa da Flip 2007, Paulo José, Mario Bortolotto e Bosco Brasil falaram de teatro e literatura. Ou da crise do teatro que já dura "uns cinco mil anos", segundo eles.

Foi a única mesa que presenciei que não tinha lotação completa do auditório. Em compensação foi a única aplaudida de pé ao final.

Os palestrantes discutiram como o preconceito e a ignorância ainda corroem a arte de Shakespeare. Bortolotto lembrou que quando um ator é canastrão ou não se dá bem na TV ou no cinema, se diz: a interpretação dele é muito "teatral". Que deveria ser descrita simplesmente como ruim, segundo o autor.

Bosco Brasil completou que o contrário acontece diante de uma bela imagem, que costumamos descrever como "cinematográfica".

Escrito por Marcelo Tas às 19h35

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O flop da Flip




A tão esperada atração da Flip: a aparição do Prêmio Nobel que não dá entrevistas, o sul-africano J.M. Coetzee, se tornou uma frustração. O escritor permaneceu imóvel, de pé num púlpito, por uma hora, lendo trechos do seu novo livro, "Diário de um Ano Ruim". Não permitiu a presença de um mediador, nem perguntas da platéia.

Será que é minha implicância ou vocês são capazes de me dizer que intenção tem um autor recluso em se deslocar até o Brasil e não se permitir a ouvir seus próprios leitores? Mais, para que se aventurar a ler um texto se ele próprio não tem bagagem dramática ou mesmo vocal para fazê-lo de forma adequada (lembro que a leitura não se limitou a um trecho curto da obra, como os outros autores regularmente fazem na Flip: a leitura monocórdia durou cerca de UMA hora!)? Consegui permanecer exatos dezoito minutos na sala (para vocês verem como eu tentei).

Feita a ressalva da qualidade estupenda do texto, diria até mesmo da genialidade do autor, o Prêmio Nobel de Literatura de 2003 vai levar deste humilde blog o prêmio de mesa mais chata da sensacional Festa Literária que se encerra hoje em Paraty. O grande "flop" da Flip 2007.

Ele merece.

A platéia resistiu muda e impávida até a última sílaba. Será que o meu colega repórter Nelson Rodrigues tem razão quando diz a unanimidade é burra?

PS: Depois de escrever esse texto pela manhã, gente pela rua veio falar comigo dizendo que concorda com a tese: o monólogo do grande Coetzee foi chato pra dedéu.

PS2: Fica aqui uma sugestão respeitosa à sensacional organização da Flip, não aceitar esse tipo de exigência.

Escrito por Marcelo Tas às 09h23

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Fisk vs. Wright: nocaute no primeiro round!





O esperado embate entre os jornalistas Lawrence Wright (EUA) e Robert Fisk (Inglaterra) terminou em nocaute inapelável. O norte-americano beijou a lona já no primeiro round.

Quando a mediadora do "conflito", a jornalista Dorrit Harazim, lançou a ótima idéia de deixar os convidados se entrevistarem, talvez não tenha avaliado quão explosivo seria o embate. Logo na primeira pergunta o jovem texano Wright, prêmio Pulitzer 2006 por "O Vulto das Torres" sobre a origem da Al-Qaeda, ousou perguntar a Fisk, o correspondente inglês do The Independent no Oriente Médio: você acha que os Estados Unidos mereciam ser atacados em 11 de Setembro?

O "animal furioso", como Fisk é definido pelo The New York Times, não titubeou: esta é a pergunda mais estúpida que alguém já me fez. É óbvio que nenhum país do mundo merece ser atacado. Nem o Iraque!

As palmas preencheram o auditório lotado e deixaram a situação bem complicada para Wright, que passou o debate nas cordas se defendendo e acentuando que a paciência com a arrogância e cegueira dos norte-americanos já atingiu o limite. Até no Brasil, o país dos homens cordiais.

Escrito por Marcelo Tas às 08h51

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07/07/2007

Flipinha tem papo-cabecinha e alegria de graça




Além dos papos cabeça da Tenda dos Autores, bem na praça principal de Paraty acontece a parte certamente mais animada e barulhenta da Flip: a Flipinha.

Como na "Flipona", aqui também acontece papo-cabecinha aberto ao público, sempre lotado, com autores infantis.

A idéia da Flipinha é, além de contemplar a criançada, funcionar como conexão com a população local. Este ano, há uma exposição realizada por escolas públicas onde os estudantes mirins foram convocados a responder à seguinte pergunta: o que melhor representa a cidade de Paraty? Entre as respostas, em forma de criativas e delicadas instalações estão: a farinha, a Festa de São Benedito e a cachaça.

Mas a diversão preferida da molecada, sem dúvida, é vestir a fantasia de bonecão aterrorizador e sair pela praça dando susto em outras crianças e escritores distraídos que por ali passam.

Tais bonecões, cada um mais gozado que o outro, são confeccionados pelo grupo "Assombrosos do Morro", do bairro do Pontal, uma tradição do carnaval paratiense.

No vídeo abaixo, estudantes guaranis de Parati-Mirim, aldeia a poucos quilômetros do centro da cidade, experimentam a brincadeira de carnaval que virou o hit da Flipinha 2007.




Escrito por Marcelo Tas às 13h24

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Fisk: internet zero?




Muita gente me escreve duvidando que Robert Fisk não usa a Internet (como me conta na entrevista abaixo).

Diz que tem cerca de 300 mil documentos devidamente catalogados por um arquivista em sua casa em Beirute. Quando viaja, carrega parte desse acervo com ele.

Conta que trouxe para Paraty três caixas com recortes de jornal e documentos. Acima, foto onde mostra parte dessa verdadeira internet à lenha que tem sempre ao alcance da mão.

Escrito por Marcelo Tas às 10h05

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06/07/2007

Meu encontro com Robert Fisk, o "animal furioso"




O celular toca enquanto entro na Pousada do Ouro, britanicamente no horário combinado, para o encontro com o jornalista e escritor inglês Robert Fisk. É a funcionária da editora que o publica no Brasil impaciente com a minha ausência. Rimos aliviados um diante do outro com os telefones em punho.

Ele já vai descer, ela diz, foi trocar de camisa. Confesso um certo receio da missão de entrevistar o “correspondente internacional britânico mais famoso do mundo”, conforme sentenciou o The New York Times, jornal com o qual Fisk já travou brigas homéricas.

O próprio Times já o descreveu como um “animal furioso”. Fisk não tem filhos e vive em Beirute, onde é correspondente do jornal inglês The Independent. Há 30 anos, acompanha conflitos pelo mundo. Já cobriu a revolução islâmica no Irã, o conflito Irã-Iraque, a guerra do Golfo, do Kosovo, a invasão do Iraque e o recente conflito entre Israel e Líbano.

Neste sábado, Fisk e Lawrence Wright, autor de "O vulto das torres", dividem a palavra debatendo "Narrativas de Conflito" na concorridíssima Tenda dos Autores.

Estava ainda inquieto buscando com os olhos um lugar tranquilo para gravar a entrevista quando surge às minhas costas o velhinho espevitado, olhos faiscantes azuis e com um gesto rápido tira o chapéu de palha que estou usando na Flip para proteger minha careca.

- Nice hat!
- Thank you, Mr. Fisk.

Coloca meu chapéu em sua cabeça, mas não permite que eu o fotografe naquele figurino de caiçara. Comenta que tem o mesmo problema que eu, é cabeçudo. Por isso sabe o valor de se encontrar um bom chapéu.

Conversamos durante uma hora sem interrupções. A não ser por algumas gargalhadas compartilhadas na tranquilidade da manhã de sol no jardim interno da pousada. Apesar de conviver diariamente com a morte e a tragédia, Fisk cultiva com disciplina o discreto e cortante humor inglês sempre afiado.

Segue-se o resumo da conversa:

Marcelo Tas: Nelson Rodrigues, escritor brasileiro homenageado na Flip, dizia: “As manchetes dos jornais não dão conta de reconhecer a catástrofe do mundo atual”. Você concorda com ele?

Robert Fisk: Os jornais geralmente tratam os assuntos, especialmente a guerra, como um jogo de futebol. Concedem 50% do tempo para cada adversário. Mas a guerra não é um jogo de futebol. Se eu fosse contar a história do tráfico de escravos africanos para o Brasil deveria dar 50% de espaço para os traficantes de escravos expressar suas opiniões? E também outro tanto para os nazistas?

Uma guerra é pura dor. Já estive num corredor de hospital em Bagdá com o chão “inundado” por três centímetros de sangue. Vi uma criança sem perna com sua mãe ao lado segurando seu braço decepado. Junto delas, um soldado iraquiano com o olho perfurado. Era um soldado do exército que defendia Saddam Hussein. A guerra é o fracasso da civilização.

Por isso não acredito em jornalismo de manchetes. Não se pode brincar com a guerra. A imprensa numa hora dessas pode ser uma arma letal. Como foi o The New York Times que apoiou a invasão do Iraque por George Bush. O mesmo jornal disse que no Independent cobrimos o Oriente Médio como animais furiosos. Fiquei muito feliz com essa condecoração (risos).


Tas: Você está conseguindo desfrutar do seu tempo livre em Paraty? Como compara esses dias aqui com sua rotina em sua casa em Beirute, no Líbano?

Fisk: (um pouco ríspido) Eu não estou em férias em Paraty. Trabalho o tempo todo, como se estivesse em qualquer outro lugar do mundo, como correspondente do Independent no Oriente Médio. Saio muito pouco do quarto. Trouxe na bagagem caixas com documentos que uso para este trabalho.

Tas: Você carrega papéis ao invés de tê-los no computador ou buscá-los na internet?

Fisk: Eu não uso internet.

Tas: O que você está dizendo?

Fisk: Nem internet, nem e-mail. Uso intensamente apenas o celular. As pessoas me acham qualquer hora em qualquer parte do mundo. É um celular da companhia telefônica de Beirute. O Líbano tem um excelente sistema de comunicação. A internet atrapalha o jornalista. Com o Google, ao invés de ir direto a fonte, você lê o que fulano escreveu sobre o que sicrano disse que alguém disse. É um jornalismo digressivo.

Um amigo jornalista já me criticou dizendo que abria pela manhã a internet. E depois de três horas já tinha lido o The New York Times, Corriere de la Sera, El País, The Guardian… Eu disse, meu querido, enquanto você lia eu já realizei três entrevistas com pessoas diferentes e sei muito mais sobre o que está acontecendo no mundo que você.

Tas: Como você encontra equilíbrio para viver o tempo todo viajando entre países em guerra?

Fisk: Tenho mais horas de vôo por ano que muitos pilotos internacionais. Não sei mais o que é jet lag. Vivo permanentemente nele. O segredo é usar sempre os mesmos hotéis e a mesma companhia aérea. Assim você vai formando uma certa família de conhecidos que está sempre em movimento. Por exemplo, eu decidi que se possível eu só uso a Air France. Os caras tem a melhor comida de bordo do mundo. Conheço todas as tripulações. Mal sento na poltrona e a chefe de cabine já vem soprar no meu ouvido: Mr. Fisk, não se preocupe, após a decolagem, já sirvo o seu gin tônica (risos).


Tas: Onde estava você no dia 11 de Setembro?

Fisk: Justamente dentro de um avião embarcando para os Estados Unidos. O chefe do vôo me chamou e perguntou: Robert, o que está acontecendo? Fiquei o vôo inteiro, usando o telefone via satélite da cabine, apurando os fatos. Desde o primeiro minuto, eu disse. É o ataque. Ditei o artigo para o The Independent da cabine da Air France.

Tas: Você já esteve com Bin Laden. Conseguiu enxergar algum traço de amor e compaixão nos olhos dele?

Fisk: Você quer um lado bom em Bin Laden? É complicado. Ele vive no deserto de sua mente. Literalmente. Vive dentro de uma caverna. E é importante que se diga, lendo livros muito importantes. Apresentou-me seus principais auxiliares e o local onde vive com suas três mulheres.

É extremamente auto-confiante e dono da verdade, o que não o deixa muito distante de Bush ou Blair (risos). Um dos líderes da Al Qaeda me perguntou, por que eu quis ser jornalista? Eu disse: porque eu me interesso pela verdade. Ele disse: então você não quer ser jornalista; quer é ser muçulmano (risos).

PS1: no video à esquerda, Robert Fisk mostra, com uma mímica numa mesa de bar, como avançou a liberdade de expressão no Líbano.

PS 2: livros mais recentes de Robert Fisk lançados no Brasil: "A grande guerra pela civilização" e "Pobre Nação", sobre as guerras do Líbano.


Foto: Marcelo Tas

Escrito por Marcelo Tas às 17h12

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Escritores decidem pressionar Congresso para garantir liberdade de se publicar livros no Brasil




Esta manhã, ao se aproximar do meio-dia, a Flip pegou fogo. Durante o debate sobre a interferência dos tribunais na vida dos escritores de biografias uma idéia proposta pela platéia foi recebida com entusiasmo pelos autores Fernando Morais (foto), Ruy Castro e Paulo Cesar de Araújo, este último, o autor da biografia "Roberto Carlos em Detalhes", recentemente recolhida das livrarias a pedido do cantor.

A proposta era de um abaixo assinado contra a censura para ser encaminhado ao presidente Lula. Fernando Morais tomou a palavra e propôs que fosse direcionado ao Congresso Nacional, e não ao Presidente, um pedido de emenda constitucional para garantir a liberdade de se publicar livros no Brasil.

Disse ainda que chegou a ficar com muita raiva de Paulo Cesar porque havia entendido que o autor havia participado do acordo com a editora Planeta e o cantor para retirar o livro de circulação. E que via agora o caso do recolhimento do livro como uma oportunidade de se lutar a favor da liberdade de expressão no país. Ruy Castro, que teve problemas semelhantes quando publicou a biografia de Garrincha, apoiou a inciativa. Deu como contra exemplo do atraso brasileiro, as dezenas de biografias que são publicadas livremente nos Estados Unidos atacando Hillary Clinton. Ruy avalia que o precedente aberto pelo caso de Paulo Cesar é muito delicado. Que no momento ninguém pode pensar em publicar biografias no país sob a pena de ser acionado na Justiça por herdeiros ou mesmo pelo próprio biografado.

Morais e Castro se colocaram publicamente à disposição de Paulo Cesar para ajudá-lo a levar o abaixo-assinado aos escritores reunidos em Paraty e depois para todo Brasil.

Escrito por Marcelo Tas às 11h24

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Detalhe que fica fora dos debates: a luz de Julho




A Flip é um encontro de cérebros privilegiados. Público e autores tentando entender o mundo caótico em que vivemos, interno e externo, em debates repletos de sujeitos, verbos e adjetivos. Mas há um fato de capital importância, de difícil análise objetiva, que manda no humor e sucesso da Flip: as cores do sol nesta época do ano em Paraty.

Acima, a luz que lambia o casario colonial às 4 da tarde de ontem, no cruzamento da Rua da Cadeia com Rua da Matriz.

Escrito por Marcelo Tas às 08h30

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05/07/2007

Will Self rouba a cena no primeiro dia da Flip




A multidão de loucos por livros deixou a Tenda dos Autores gemendo de prazer: "foi a melhor palestra do dia, o cara é genial".

Era o encontro do norte-americano Jim Dodge, poeta e diretor do programa de Escrita Criativa da Humboldt State University, na Califórnia, com o jornalista e escritor inglês Will Self. O "genial" ficou para este último.

Foi justamente a figura dele que me atraiu até a mesa "Sobre Patos e Macacos", que teve início as 17h em ponto e acabou um pouco depois do horário previsto com aquele "ohhhhh" que a platéia do Jô dedica às boas entrevistas do gordo.

Self é um autor de 45 anos que sofre com frequência cobranças de "seriedade" já que, além dos seus livros com temas excêntricos e bizarros, frequenta com regularidade alguns dos programas de rádio e TV mais irreverentes da Inglaterra. Entre eles, o "Have I Got News For You", um dos meus preferidos.

Voz grave, em dolby stereo, que realça a pronúncia e veneno irreverente que coloca em cada uma das sílabas que saem da sua boca. Will usou e abusou de suas habilidades de comunicador para colocar a platéia no bolso.

Sua performance é uma mistura de Pedro Cardoso com Clodovil. No que se refere à habilidade de combinar a língua venenosa com um humor desconcertante, que fique bem claro. Will não é gay. Pedro Cardoso também não. E até Clodovil já nos informou uma vez que também não o é. E vamos mudar de assunto.

O inglês pontiagudo não perdeu o rebolado nem diante de uma provocação ousada disparada por alguém da platéia: "Por que vocês ingleses teimam em acreditar nessa falsa superioridade?". Respondeu esta e outras perguntas da mesma forma que escreve seus livros: inventando um universo próprio onde navega à vontade por idéias exageradas. Falando nelas, é dele a cena onde um morto fica desesperado quando descobre que chegou do outro lado ainda com uma das piores pragas da sua fase de mortal: os dentes, em "Como Vivem os Mortos" (2005).

O poeta recluso Jim Dodge foi um excelente contraponto para Will Self. Contido, mas dono de uma visão igualmente excêntrica, também ganhou aplausos efusivos da platéia quando leu "Holy Shit, Parte 3", poema onde lista todas as suas crenças com elegância, ironia e inteligência. A última delas a crença de que apesar de acreditar em tanta coisa, acredita acima de tudo, que a crença dele não é necessária para tudo existir.

Escrito por Marcelo Tas às 19h28

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04/07/2007

Uma festa literária em Paraty é o óbvio ululante




Depois que alguém faz, fica fácil. É a tal história do ovo de Colombo. Fazer uma festa de loucos por livros, um encontro de nerds das letras, numa espécie de Ouro Preto à beira-mar, como diria Nelson Rodrigues, o homenageado da quinta edição da Flip, é um óbvio ululante.´



É uma festa suave e intensa ao mesmo tempo. Ruas lotadas, hotéis e restaurantes idem. Convites disputados a tapa e beijos.... Ainda navegando pelo onipresente Nelson Rodrigues, as ruas de Paraty são tomadas por uma multidão de "Lemos"- aquele vizinho anônimo e esquisitão que todos temos no prédio.


Na festa de abertura dessa quarta à noite, na Tenda da Matriz, a decana e odiada/amada crítica Bárbara Heliodora, na palestra inaugural, disse que o óbvio ululante de Nelson Rodrigues é que ele não era carioca; e sim Pernambucano. Tal origem teria calibrado seu ouvido e olhar para tornar suas histórias cariocas universais.



Cerca de 1,2 mil pessoas do lado de dentro e uma outra boa parte do lado de fora da Tenda aplaudiram como se concordando com Heliodora. A tal multidão de "Lemos" é mesmo educada, ou tímida demais (ou ainda seria travada demais?), pois só se levantou da cadeira após a segunda metade do show que fechou a noite com a sacolejante Orquestra Imperial, .



No video acima, disparado direto do meu celular, um alozinho em close-up da cantora Thalma de Freitas. A orquestra fez os homens e mulheres das letras rebolarem até uma da manhã.


Tudo são flores? Infelizmente, não. A prometida banda larga sem fio para imprensa e público, recém inaugurada com direito a tambores e salamaleques ao governador do estado, evaporou já no primeiro dia. Enviar o video e essas mal traçadas para vocês, virou um esforço de "Os Doze Trabalhos de Hércules".


Escrito por Marcelo Tas às 22h18

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Blog do Tas na Festa




A cidade de Paraty fica entre São Paulo e Rio de Janeiro. Caprichosamente "escondida", longe do ruído das duas metrópoles e de auto estradas possantes.

Estou a caminho do encontro literário mais badalado do Brasil que acontece naquela cidade, a FLIP. Para contrariar o IBGE, até a prefeitura adota um Y e não um I no final do nome. Também para confundir jornalistas distraídos, o F de FLIP não significa Feira, mas Festa Literária Internacional de Parati (sim, eles preferem o I ao Y).

Para fazer juz ao nome, hoje a noite tem festa de abertura da FLIP com a sensacional Orquestra Imperial.

De lá, eu converso com vocês, hoje à noite e nos próximos cinco dias. Direto da Festa da Flip.

Agora, pé na estrada. Até!

Escrito por Marcelo Tas às 07h19

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03/07/2007

A situação não é de CPI mas de psiquiatria




Houve um tempo em que todos éramos PMDB. Ou melhor, MDB, Movimento Democrático Brasileiro. Porque do outro lado só existia a ARENA, o partido da ditadura e do Maluf.

Ulisses Guimarães, o grande líder do partido, era casado com uma velhinha simpática, dona Mora, daquelas que dá vontade de ficar conversando o dia todo ao redor de bolinhos e cafezinho coado.

Ja o atual PMDB deixou de ser caso para a Policia Federal e virou caso para a psiquiatria. Psicopatia: segundo a Wikipedia, distúrbio mental em que sujeito que se mantém a par da realidade, mas carece de Superego. Isto faz com que o psicopata possa cometer atos criminosos sem sentir culpa.

O dicionário Houaiss também acrescenta que o enfermo acometido da psicopatia apresenta comportamentos anti-social e amoral, sem demonstração de arrependimento ou remorso; e incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos. Além de egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência.

E completa, o nosso bem informado Houaiss: não obstante, as pessoas psicopatas têm condutas criminais sem nenhum sentimento de culpa, mantendo plena consciência dos seus crimes ou das suas intenções criminais.


Foto: Lula Marques / Folha Imagem

Escrito por Marcelo Tas às 08h43

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02/07/2007

Ruy Castro e a arte de embrulhar peixe




Se diz que jornal antigo só serve para embrulhar peixe. Não é o caso da coluna de Ruy Castro, que vai copiada abaixo, publicada na Folha de sábado retrasado (!). Resumiu como poucos a perplexidade da nação com a pasmaceira e a impunidade.

Aliás, Ruy Castro vai estar na FLIP. Além de biógrafo de Nelson Rodrigues ("Anjo Pornográfico", de indispensável leitura), Ruy é o responsável por organizar a sensacional reedição da obra do dramaturgo pernambucano de nascença, carioca de subúrbio de fato na vida artística.

..::..

RUY CASTRO

Fala sério

RIO DE JANEIRO - No tempo em que eu fingia que levava as coisas a sério, achava que a humanidade se dividia em duas espécies de pessoas: as que dividem a humanidade em duas espécies de pessoas e as que não dividem. Entre as que dividem a humanidade em duas espécies de pessoas, convenci-me de que a humanidade se divide em duas espécies de pessoas: as que fingem que se levam a sério e as que fingem que não se levam a sério.

Entre as pessoas que fingem que se levam a sério, a humanidade se divide em duas espécies de pessoas: as que apenas fingem que se levam a sério e as que sinceramente acreditam que se levam a sério. Entre as que apenas fingem que se levam a sério, a humanidade também se divide em duas espécies de pessoas: as que fingem muito bem que se levam a sério e as que fingem muito mal. Entre as que fingem muito bem que se levam a sério, a humanidade igualmente se divide em duas espécies de pessoas: as que nos convencem de que fingem que se levam a sério e as que não nos convencem.

Entre as pessoas que sinceramente acreditam que se levam a sério, a humanidade também se divide em duas espécies de pessoas: as que sinceramente acreditam que se levam a sério e as que apenas fingem que acreditam que se levam a sério. Entre as pessoas que sinceramente acreditam que se levam a sério, a humanidade, idem, se divide em duas espécies de pessoas: as que nos convencem de que acreditam que se levam a sério e as que não nos convencem.

Esse emaranhado verbal, que exige um sábado inteiro para ser decifrado, se aplica às discussões no Senado a respeito do senador Renan Calheiros. Quase todos os seus pares no Congresso se enquadram numa das categorias acima. Eles parecem decididamente empenhados em tirar o país do sério. Como se já não tivessem conseguido.

Enviado por Jacques Stifelman
Ilustração: "The Wild News", da Universidade de New Mexico.

Escrito por Marcelo Tas às 09h36

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Que Nelson inspire a FLIP e o Brasil




A partir da próxima quarta-feira, este blog estará transmitindo diretamente da FLIP- Feira Literária Internacional de Paraty.

Este ano, o evento homenageia o grande Nelson Rodrigues, dramaturgo colossal, cronista sublime da vida brasileira e acima de tudo, o mais hábil usuário de adjetivos da lingua portuguesa. Por isso, os anteriores são de um raquitismo de dar dó. Incapazes de apontar com a devida eficiência o lugar que Nelson Rodrigues merece na nossa combalida cultura verde-amarela.

É uma alegria e alento ser convocado para cobrir um evento cujo homenageado é Nelson. Que ele inspire a FLIP e o Brasil, agora e sempre.

Abaixo, uma das minha preferidas visões do nosso Shakespeare de subúrbio. Será que Nelson Rodrigues estava antevendo que um dia o país ficaria paralisado diante do imprevisível desfecho de uma crise provocada pela amante do presidente do Senado?

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A sociedade brasileira segundo NR

O rico e o pobre são duas pessoas.
O soldado protege os dois.
O operário trabalha pelos três.
O cidadão paga pelos quatro.
O vagabundo come pelos cinco.
O advogado rouba os seis.
O juiz condena os sete.
O médico mata os oito.
O coveiro enterra os nove.
O diabo leva os dez.
E a mulher engana os onze.

Nelson Rodrigues

PS: da série "Leve Desespero"

Escrito por Marcelo Tas às 07h46

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