Oh, céus, não é possível que vai acontecer mais uma vez... Sim, aconteceu. Estávamos gravando na Praça da Paz Celestial, célebre palco da repressão chinesa a estudantes em 1989. O guardinha falou no radinho. Apareceram outros guardinhas. Finalmente um guardão gigante, com um radinho que parecia ainda maior que os dos seus coleguinhas. E pimba: você aí, repórter com essa ferramenta contra-revolucionária na mão, o microfone, teje preso!
Já havia visto esse filme duas vezes: em Cuba e depois na falecida União Soviética. Na ilha de Fidel, um policial não gostou da entrevista que fazia com um garoto que sabia imitar Michael Jackson. Em São Petersburgo, a própria tradutora (traidora!) nos entregou para uns soldadinhos a quem pretendíamos perguntar candidamente: qual a próxima revolução soviética? Azar o deles que não queriam ouvir a pergunta que na verdade era um alerta. Poucos anos depois, o partido e a URSS veio abaixo. Portanto completei a tríplice aliança, garotada: sofri na pele a repressão à liberdade de expressão na Rússia, em Cuba e agora na China.
Antes que alguém tente dizer que há cerceamento à liberdade de expressão em todo lugar, incluindo o Brasil, confirmo. Sim, a rigor, não existe liberdade absoluta de expressão em lugar algum. Mas não há comparação entre o controle existente em Cuba e na China, com a liberdade de expressão, conquistada a duras penas é bom lembrar, aqui no patropi. Além da pluralidade de veículos, de todos os tamanhos e paladares, resta ainda possibilidade do próprio cidadão publicar tudo, por conta própria, na internet.
Na China, isso é impossível. Tentam controlar o incontrolável: blogs, o Google e até a Wikipedia. Para não falar do site da BBC, que é totalmente fechado e casos ainda mais doentes, como a revista The Economist, que invariavelmente, como no mes passado, foi às bancas em Pequim, com uma de suas páginas arrancada! Sim, os censores chineses se deram ao trabalho de arrancar, uma a uma, a página da revista que não lhes agradou. Muito feio para uma cidade que se prepara a tanto tempo para ser a capital dos próximos jogos olímpicos, além de centro cosmopolita do próximo império econômico mundial.
Não posso deixar de comentar aqui a melancólica despedida de Fidel, infelizmente decisão tomada um pouco tarde. Antes tarde do que mais tarde, é claro, Mas vai muito tarde. Ficou no poder literalmente até não mais aguentar. Depois de libertar Cuba das garras dos norte-americanos que usavam e abusavam da ilha como uma espécie de bordel no Caribe, não soube libertar Cuba de sua própria mão pesada. Matou e censurou quem não compartilhava de suas idéias. Centralizou o poder de uma forma tão radical que não criou uma cultura política que fosse capaz de indicar um sucessor. Melancolicamente é substituído pelo próprio irmão. Visivelmente encabulado pela sombra e sina soturna de ser o irmão mais burro de Fidel Castro. É evidente.
Well, de minha parte, resta-me apenas pedir a papai do céu, que esta, a experiência com o soldadão chinês na Praça da Paz Celestial seja minha última experiência de uma quase prisão num país "comunista". Completei minha tríplice aliança, meu Grand Slam: Cuba, Rússia e China. Espero que agora, os vermelhos, maus leitores de Karl Marx, me deixem trabalhar em liberdade. E que descansem em paz.
Foto: Ivana Angioni PS: o simpático china da foto acima não é evidentemente o policial que nos impediu de gravar em Tianamem; mas um dos integrantes do exército de 3 mil flanelinhas, que tentam, sem sucesso, disciplinar carros e pedestres no trânsito caótico de Pequim. Mais informações sobre esse e outros assuntos na série de reportagens que a editoria de Esportes publica em Março, aqui no UOL.
Segundo especilistas do sono, o corpo humano precisa de um dia para recuperar cada hora de fuso horário. De Pequim a São Paulo, a diferença é de 11 horas. Portanto, estou frito. Depois de 10 dias por lá, já estava quase me acostumando ao fuso chinês, agora estou aqui totalmente grogue nessa loucura de trocar o dia pela noite e virar o sono do avesso.
Com o jet lag, as notícias no jornal parecem ficar ainda mais absurdas. Será que todos leram o que eu li agora pela manhã, na coluna de Mônica Bergamo: o Rabino Sobel, depois de afanar gravatas nos EUA, vai lançar um livro que já é best-seller, além de receber uma indenização multimilionária da Congregação Israelita Paulista?!
No jornal antigo, do dia 21, amontoado ali na cozinha, vejo que Paulo Maluf recebeu prazo 15 dias da Justiça para devolver R$ 700 milhões torrados por ele na brincadeira da Paulipetro. Já se passaram 7 dias! Vou ligar para o ex-prefeito para contar alguns dos sonhos que tive na minha primeira noite de jet lag. Quem sabe ele não se sinta tão sozinho dentro do seu próprio pesadelo. Aliás, tá na hora de voltar a dormir. Bom dia, boa tarde, boa noite, não necessariamente nessa ordem.
Estou de partida. Foram 10 dias turbinados pelos 4 mil anos de cultura deste país tão populoso quanto insondável. Acredito que temos boas histórias para contar para vocês, em video. Serão publicadas aqui no UOL em Março, pela editoria de Esportes, que aquece as turbinas para uma super cobertura das Olimpíadas.
Neste adeus, agradeço ao Edu Piagentini, meu fiel cameraman e parceiro de viagem e à queridíssima e eficientíssima Ivana Angioni, italiana que fala chinês como local, estudiosa da cultura chinesa na Universidade de Veneza, a mais importante da Europa neste quesito, o que não é de se estranhar já que se trata da terra de Marco Polo. Ivana foi fundamental, nos guiou e abriu difíceis caminhos aqui na terra de Mao Tse Tung. Inclusive nos salvou de sermos levados pela polícia quando gravamos em Tianamem Square. Mas isso conto depois.
Agora, tenho pela frente mais de 30 horas de viagem, que não são nada perto das 11 horas de fuso horário que vou ter que recuperar quando chegar aí na próxima quarta-feira. Tenham paciência. Volto logo.
Obrigado, China! Muito boa sorte nas Olimpíadas. Tenho certeza que vão ser um arraso. Xiê siá!
Bráulio responde: El Diablo e o intelectual islâmico
Bráulio Mantovani, o cara mais indicado para falar de Ms. Diablo (post abaixo) me enviou a resposta- sempre pronta, precisa e elegante como seus roteiros de cinema.
Aproveito para enviar aqui os parabéns a ele e José Padilha pelo Urso de Ouro em Berlim com o sensacional "Tropa de Elite". Não sou o Galvão Bueno, mas eu já sabia que isso ia acontecer. Na noite de estréia do filme em São Paulo, eu disse para os dois se preparem para os gigantescos confetes internacionais que viriam. E outros ainda virão, podem escrever. "Tropa" é um novo marco histórico do cinema, um download tão concentrado de informação sobre a realidade brasileira que deixou muitos atônitos, outros histéricos e alguns com uma baba de inveja bovina escorrendo pelo canto da boca.
Conta aí quem é "El Diablo", Braulinho:
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Marcelo, vc. tá na China! Desde quando? Quando volta?
Vc. tá longe que se esqueceu que eu, apesar de ter sido indicado ao Oscar, sou o cara menos indicado para falar sobre o Oscar. Eu durmo nos primeiros 15 minutos. A única vez que eu vi a cerimônia inteira, foi ao vivo. Só vi "la" Diablo na foto do seu blog. Eu não sabia quem era a moça. Agora sei que ela tem 30 anos. Nasceu em Chicago. Mudou para Minnesota para morar com o namorado que conheceu pela internet. Começou a fazer strip-tease meio como hobby. Depois foi trabalhar em uma agência de publicidade. Largou o trabalho e virou streaper profissional. Escreveu um livro: "Candy Girl : A Year in the Life of an Unlikely Stripper". Acabou se casando com o namorado que já tinha uma filha. Juno é o primeiro filme dela. Ela tem outros dois projetos (um em cinema e outro em TV) em pré-produção. Que eu saiba, ela já não faz mais streap-tease. Mas acho que poderia, né? O visual da moça é realmente notável. Agora todo mundo vai esquecer o look do Zé Padilha no festival de Berlim. Parecia um intelectual islâmico, né? Bom, pra saber mais sobre "la" Diablo, é só clicar no link: http://imdb.com/name/nm1959505/.
Aqui na China não se assiste ao Oscar. Por conta do controle de informação livre, evidentemente. Além disso, enquanto rolava a festa na noite do domingo em Los Angeles, aqui estávamos em pleno expediente de uma segunda-feira braba.
Chegando agora ao hotel, fui conferir o resultado. Adorei que os irmãos Coehn foram os grandes vencedores. Sou fã dos caras desde 1987, quando vi "Raising Arizona", no East Village em Nova York. Voltei para casa pisando na neve, feliz da vida por confirmar a possibilidade de se contar uma história com sons, imagens e elegância.
Mas, a grande surpresa deste Oscar, pelo pouco que pude acompanhar daqui de Pequim, é essa figura aí da foto: Diablo Cody, roteirista de "Juno". Opsss... Diablo? Bem que eu desconfiava. De onde saiu moça tão perigosa e agradável aos sentidos? Vou telefonar para meu amigo Bráulio Mantovani, o único membro (sem duplo sentido, por favor) da Academia de Cinema de Hollywood, colega dela, que pode me fornecer alguma pista.
Para quem pensa que aqui é tudo certinho: sim, na China tem batedor de carteira. Olha só as correntinhas com cadeado para os clientes amarrarem suas bolsas nesse restaurante de Pequim.
Ah, e tem também putas, tanto aquelas com residência própria que ficam na vitrine, como em Amsterdam, só que vestidas (até porque aqui está frio demais) como aquelas outras do estilo freelancer de rua, na verdade mocinhas quase infantis, que nos abordam nas esquinas com delicadeza, especialmente no final da tarde: "Relôôôôôuuu, do you want a masssssage?"
Difícil descrever em palavras, crianças. Gravamos pela manhã com uma trinca de noivas que já se casaram há tempos. Estavam apenas fazendo o seu álbum de casamento. Isto mesmo, tiveram que esperar pintar uma grana para fazer um álbum como manda o figurino chinês. Sem pestanejar, as noivinhas tinham por baixo do vestidão branco, tênis All Star e calça jeans. A reportagem completa em video será publicada pelo UOL em Março.
Obrigado pelas perguntas para a molecada digital chinesa. Encontro eles no final de semana, que aqui começa em poucas horas.
Confirmo, é verdade. Vou apresentar o CQC, Custe o Que Custar, programa da Band, que estréia em Março, como noticiado pelo colunista Daniel Castro, da Folha.
HOMENS DE PRETO 1 Marcelo Tas será o principal nome do "CQC" ("Custe o Que Custar"), a versão da Band para o argentino "Caiga Quien Caiga", no ar a partir de março.
HOMENS DE PRETO 2 Tas irá comandar a bancada do "CQC" ao lado de Rafinha Bastos (do Clube da Comédia) e Marco Luque (da peça "Terça Insana"). Também estão no elenco Danilo Gentili (Clube da Comédia), Rafael Cortez e Felipe Andreoli (repórter de esportes da Band). Falta ainda definir um sétimo componente.
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Foto: bastidores da gravação da abertura do programa em Buenos Aires, na produtora Cuatro Cabezas. O terno elegante foi cortado pelo seu Pedrinho, na Rua Augusta.
Dia movimentado. Algumas coisas a declarar antes de ir para a cama. Aliás, não sei se já perceberam: quando vou dormir, agora a caminho da sexta-feira, por exemplo, vocês estão começando a quinta aí no Brasil. Ou seja, enquanto a maioria de vocês comenta aqui no blog, eu estou dormindo. Parece bobagem, mas é uma situação muito nova e estimulante para mim.
Lá fora, uma barulheira infernal de fogos de artifício. Hoje é a Noite das Lanternas Vermelhas, a primeira lua cheia do Ano Novo chines. Menos que uma celebração, marca o final do feriadão que começou em 7 de Fevereiro, data em que caiu o reveillon deles no ano do Rato, que para eles é 4076!
Esta noite também é a última chance dos chineses soltarem fogos. Depois eles ficam banidos da área central de Pequim. Pelo menos, por um tempinho, já que os caras adoram um barulho. Afinal foram eles que não só inventaram os fogos de artifício, como também a pólvora. Estão aproveitando. O céu de Pequim está que é um pipoco só.
Os dias aqui estão muito velozes. Não dá tempo de contar tudo. Ontem, conheci um hutong, a forma mais tradicional de habitação em Pequim. Na verdade, a cidade, desde o século 13 foi se desenvolvendo em torno dos hutongs- uma forma de organização urbana onde as casas são voltadas para dentro do quarteirão. Do lado de fora, na rua, ficam os banheiros, que são usados coletivamente pela população e pelos passantes. E também uma espécie de quintal coletivo: velhinhos jogando damas, crianças fazendo lição de casa, roupas secando... Nas últimas décadas, começou um preconceito contra os moradores de hutong como o que há no Brasil contra quem mora em favela.
As Olimpíadas aceleraram a derrubada de muitos hutongs pela cidade para dar lugar a horrendos e gigantescos conjuntos de prédios de apartamentos. Os que se salvaram estão sendo atualizados. Atraindo visitantes e lojinhas descoladas. Visitei um dos mais charmosos que restaram na cidade. Fui recebido por essa simpática velhinha. O resultado da visita você verá na reportagem completa em video que será publicada aqui no UOL em Março.
Fiz a foto do casal que contemplava os fogos agora há pouco, a caminho do hotel. A temperatura lá fora é menos dois abaixo de zero. Está esquentando, acreditem. Figuras como essas começam a brotar como cogumelos nas ruas. Parecem personagens de desenho animado saídos de um mangá japonês. No sábado, vou cair na balada para tentar contato com essa molecada digital chinesa. Quem quiser pode deixar perguntas para eles aqui.
A China parece levar a sério o lema que já foi atribuído à TV brasileira: nada se cria, tudo se copia.
Confira sua roupa, óculos ou computador. Grande chance de quase tudo ou tudo ser "Made in China". Isso eu já sabia. O que eu não conhecia são as novas modalidades que os chineses encontraram de aprofundar, digamos assim, a "arte" da cópia.
O logo dessa rede que vende jóias- arcos amarelos com fundo vermelho- te lembra alguma coisa? O pessoal do sanduíche resolveu abrir a McJóia- nova cadeia de lojas de pérolas e anéis de casamento?
A ainda desconhecida (para o resto do mundo) marca esportiva "Li-Ning" é outro caso curioso de "inspiração". No caso, inspiração em dose dupla: enquanto o logo é "inspirado" no da Nike; o slogan é exatamente o contrário afirmativo do slogan da Adidas. Enquanto esta diz: "Impossible is nothing". Li-Ning vira o avesso do avesso para ficar no mesmo: "Anything is Possible".
A Li-Ning (nome de um medalhista olímpico chinês já aposentado, acionista majoritário da empresa) já é a terceira na China, atrás apenas de... Nike e Adidas! Parece que aqui vale o escrito: tudo é possível.
PS: havia, por engano, escrito que o slogan da Adidas é "Nothing is Impossible". Alertado pelo internauta Rodolfo já corrigi. Como você pode ver na foto abaixo, na verdade é: "Impossible is Nothing", o que não altera em nada a tese do post. É uma cópia que vira o avesso do avesso...
Respondo a vários que me perguntam sobre liberdade na internet chinesa. Infelizmente a resposta é sim, queridos amigos e amigas, a rede é controlada. Além, é claro e sabido, da censura a jornais e TV.
Daqui desta excelente banda larga de onde teclo agora, não consigo acessar vários portais, sites e blogs. Como o da BBC, a Wikipedia- enciclopédia coletiva onde seguramente o verbete China contém a informação que eu lhes trago agora. É uma pena. É a velha tentativa de tapar o sol com a peneira. De revogar a Lei da Gravidade. Ainda mais agora que a China passou os EUA e se tornou o país com o maior número de internautas do planeta: 210 milhões. Um dia, essa casa vai cair, podem escrever. Não precisariam passar pelo vexame da Rússia ou mesmo de Cuba, com essa melancólica "renúncia" de Fidel com uma carta no jornal mais estúpido e inútil do mundo: o Granma.
Conheci também vários blogs, inclusive alguns brasileiros, que não consigo acessar daqui. Entre eles, o "Cachorro Frito" porque postou uma lista com os termos e assuntos censurados pelos chineses. Aliás, é melhor não me alongar pois a qualquer momento... zapt... este blog sai do ar. E estou falando sério, crianças.
Outro aviso aos navegantes: os meus e-mails não estão chegando ao Brasil. No início pensei que fosse o meu cérebro arquitetando uma teoria da conspiração. Fiz o teste e comprovei: só chegam aí mensagens disparas direto do servidor de webmail do UOL. Quando uso o browser do meu computador, e consequentemente o servidor chinês, simplesmente nada acontece. É bizarra e antiga sentir na pele a censura. Há um Big Brother no comando da rede. E vejam bem que não estou falando do Pedro Bial.
Não sou meteorologistas, mas minha previsão é de chuvas e trovoadas quando se der o encontro da frente fria desse bloqueio com o ar quente representado pelos cerca de 31 mil jornalistas previstos para estarem aqui no Jogos Olímpicos. Faltam apenas cinco meses... Será que é tempo suficiente do partido tomar a decisão de liberar a internet?
Mas... sempre tem um mas... para compensar essa travação ignorante, hoje passei o dia num lugar da cidade onde se respira liberdade com muita criatividade. Além de muita atenção da mídia e grana do mercado global. É a Fábrica 798: ateliês de jovens artistas chineses localizados, ironicamente, dentro de antigas fábricas de componentes eletrônicos da era de Mao Tse Tung. Lá ainda se conservam nas paredes as propagandas originais do partido comunista chinês com odes ao grande patriarca da revolução vermelha. Talvez por não usarem o verbo, mas imagens como estas acima, os caras conseguiram furar o cerco da censura e os quadros valem centenas de milhares de dólares em galerias da Europa e dos Estados Unidos. Tratam com muita criatividade e uma beleza desconcertante temas tabus como: homossexualismo, preguiça, violência e a a própria memória do Partidão do chairman Mao. Visita imperdível para quem vier para as Olimpíadas.
A reportagem completa em video você verá no especial olímplico que será publicado pelo UOL Esportes, em Março.
Alguns ainda me cobram o por quê de eu ter dito aqui que a proposta de transposição do São Francisco é inconsistente. Vai abaixo, na íntegra, artigo do jornalista Washington Novaes, publicada no Estado de São Paulo (27/12/2007). Talvez esses garotos adoradores de Ciro Gomes estivessem ocupados com Papai Noel, outro de velhinho de barba branca que eles acreditam, além do presidente Lula, é claro.
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O ESTADO DE S. PAULO
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
ESPAÇO ABERTO
Bordões surrados não resolvem
Washington Novaes
E termina mais um capítulo da novela da transposição de águas do Rio São Francisco - tema tratado tantas vezes pelo autor destas linhas há uns dez anos neste espaço - sem que, na verdade, nada se tenha avançado no que parece ser o essencial para a sociedade brasileira: trata-se mesmo do melhor projeto para resolver problemas de água no Semi-Árido e do próprio rio ou há alternativas mais adequadas? Porque uma infinidade de perguntas feitas ao longo de décadas continua sem resposta.
Ao comentar a nova greve de fome do bispo dom Luís Cappio, o presidente da República apenas reiterou o velho refrão de que “é o projeto mais humanitário do governo; e só quem carrega uma lata d’água na cabeça e viu sua cabrinha morrer de sede sabe o que é o problema da seca”. Por isso, dele não se afasta. Já o ministro da Integração (que antes de ir para o governo era contra a transposição) se limitou a assegurar que o trecho principal da obra, no valor de R$ 4,5 bilhões (o total é estimado em R$ 6,6 bilhões), “estará concluído até o fim do governo Lula”. O bispo, ao encerrar a greve, lamentou a “subserviência” do Judiciário ao Executivo federal, ao revogar na semana passada liminar que impedia a continuação das obras. E pediu a seus seguidores que não abandonem a luta pela revitalização do São Francisco.
Então, o que cabe é reiterar algumas das muitas perguntas que continuam sem resposta.
Ao longo dos anos, o governo federal, por vários de seus porta-vozes, tem dito, para justificar o projeto, que “não se pode negar uma caneca de água para 12 milhões de vítimas da seca”; mas o Tribunal de Contas da União, num parecer, afirmou que o projeto não beneficiará esse número de pessoas; e o próprio Ibama, ao examinar o estudo de impacto ambiental do projeto, mostrou que este num momento mencionava 12 milhões, em outro eram 7,24 milhões, mais adiante 9,02 milhões e até 7,21 milhões; da mesma forma, a área total a ser irrigada com águas transpostas, que num trecho do estudo era de 161 mil hectares e em outro, de 186 mil hectares.
Segundo o Comitê de Gestão da Bacia Hidrográfica do São Francisco, a transposição atenderá a menos de 20% da população do Semi-Árido; 40% da população continuará sem água - exatamente as pessoas que mais precisam; e a revitalização do rio, prometida pelo governo, “precisa sair do terreno da retórica”; estudo de Henrique Cortez observa que, “nos relatórios da Secretaria Nacional de Defesa Civil, órgão do Ministério da Integração Nacional, ao longo dos últimos cinco anos, 70% dos municípios em estado de emergência em razão da seca não estão na área ‘molhada’ pela transposição”.
Vários cientistas e especialistas em recursos hídricos - como os professores Aldo Rebouças e Aziz Ab’Saber, da USP, João Abner, da UFRN, João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco (PE) - têm dito que o problema do Semi-Árido não é de escassez de água, é de má gestão; em apoio a essa posição, tem sido mostrado que o Nordeste acumula 37 milhões de metros cúbicos de água em 70 mil represas de pequeno, médio e grande porte, enquanto o consumo urbano (humano e industrial) é de 22,5 metros cúbicos por segundo para uma disponibilidade de 220 m3/seg; a demanda em 226 mil hectares irrigáveis previstos no projeto, de 131 m3/seg, pode ser atendida pela oferta de água já disponível; além do mais, o próprio Departamento Nacional de Obras contra a Seca diz que 50% dos “perímetros irrigados” em sua área não têm nenhuma serventia; várias avaliações prevêem que boa parte da água se perderá ainda por evaporação nos açudes onde será acumulada; e que essa água custará cinco vezes mais caro do que a disponível hoje (quem pagará a diferença?).
O mais recente manifesto em apoio ao bispo dom Luís Cappio afirma que 71% das águas a serem transpostas no Eixo Norte “passam longe do sertão menos chuvoso”; que 87% das águas se destinam não ao abastecimento de comunidades carentes, e sim a atividades econômicas, entre elas a fruticultura irrigada, criação de camarões e siderurgia, voltadas para a exportação; que o projeto atende apenas a quatro Estados, quando, com metade dos recursos, seria possível atender mais adequadamente a nove.
O próprio Ibama, em seu exame do estudo de impacto ambiental, entre as 41 observações que fez, mostrou que a transposição não atende prioritariamente a populações que sofrem com a seca: 70% das águas - diz o órgão licenciador - destinam-se à irrigação e 26% ao abastecimento de cidades (quando estudo recente mostrou que o Nordeste não foge à regra brasileira - na média, as cidades desperdiçam mais de 40% da água que sai das estações de tratamento); e, o que é mais grave, segundo o Ibama: 20% dos solos que se pretende irrigar “têm limitações para uso agrícola”; estes, “somados aos solos neolíticos, notadamente impróprios para a agricultura”, respondem por mais de 50% das terras que se pretende irrigar; e “62% dos solos precisam de controle por causa da forte tendência à erosão”; ainda assim, e mesmo com oito das suas perguntas não respondidas, o Ibama concedeu a licença prévia e, depois, a de instalação.
Vários estudos alternativos têm mostrado que, com metade dos recursos previstos para a transposição, seria possível beneficiar 530 municípios e 34 milhões de pessoas; que populações a 500 metros dos canais de transposição não serão por eles beneficiadas; que a solução adequada para comunidades isoladas é a das cisternas de placa (só foram implantadas 216 mil de 1 milhão projetadas, com 85% de recursos federais e o restante de instituições privadas).
São, todas, questões graves. O novo episódio com o bispo dom Luís Cappio não encerra a discussão. A sociedade brasileira, que paga os custos do projeto, tem o direito de exigir respostas. E o governo tem o dever de respondê-las - mas não apenas com os bordões surrados que já cansaram os ouvidos.
Washington Novaes é jornalista E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Quem foi que disse que estava tudo pronto para as Olimpíadas? É possível que as instalações onde vão acontecer os jogos já estejam OK e testadas. Eu acredito. Aqui nunca se sabe, a mídia é totalmente controlada. Mas tenho que informá-los que a primeira impressão de quem chega a Pequim é a de um grande canteiro de obras. Claro, tudo certinho com tapumes e out-doors gigantescos envelopando a bagunça com progagandas do evento (como este abaixo dos computadores Lenovo). Mas não duvide: a cidade está repleta de edifícios gigantescos apinhados de operários martelando noite e dia para deixá-los prontos algum dia antes do grande dia.
Alguns vão dizer: mas assim é a China, país que cresce sem parar há três décadas. Eu sei, mas estou falando é de obras que rodam as 24 horas em alta ansiedade para que terminem antes da chegada do circo olímpico: catracas eletrônicas ainda envoltas no plástico enfileiradas nas entradas do metrô (vão substituir as atuais mocinhas austeras e desconfiadas de verde que conferem os bilhetes), calçadas gigantescas ainda sem os tijolinhos amontoados fechando caminho de pedestres, prédios arrojados bem ao gosto das lentes da mídia mundial como esse da TV estatal chinesa (foto acima) ainda sobre guindastes e até mesmo um grande hotel bem aqui ao lado, ainda no esqueleto, que espera servir de pouso para os turistas endinheirados.
Minha tradutora, Ivana, uma italiana que fala mandarim como local, me garante que três meses para os chineses é uma eternidade. Então, calma pessoal, ainda faltam mais de cinco meses para a tocha ser acesa. Tudo deve terminar bem. Não estou aqui para lançar urucubaca sobre os sempre contagiantes Jogos Olímpicos. Muito pelo contrário, tenho imensa simpatia por aquela moçada malhada e sorridente que pratica esportes estranhíssimos.
Mas por enquanto, devo dizer que são quase dez da noite desta segunda-feira. E posso ouvir os tratores e escavadeiras animados, como se fosse 8 da manhã, bem aqui ao lado do meu quarto do hotel enquanto teclo essas maltraçadas para vocês.